Quilômetros de engarrafamento. Dentro dos carros, pessoas conversam, um casal namora à revelia de tudo, pessoas observam indiferentes alguém que tenta desesperadamente sair de seu próprio carro. A câmera não permite saber de quem se trata, mas exprime sua sensação de sufoco. A pessoa soca as janelas, arranha os vidros e tenta chamar a atenção para seu aprisionamento. Finalmente, o personagem liberta-se do carro, sai flutuando pelos ares, porém é puxado para o chão por alguém que o segura por uma corda. Neste momento, acorda de seu sonho, atormentado. Trata-se do personagem principal de “Oito e 1/2″ (1963), o cineasta Guido Anselmi, interpretado por Marcello Mastroianni. O filme, autobiográfico, gira em torno de um cineasta perturbardo por uma crise de inspiração para seu próximo filme. Fellini viveu a sensação em sua própria pele e, na minha opinião, a sequência inicial é a que melhor exprime esta angústia. O cineasta, à época, contou que, no dia em que comunicaria sua falta de inspiração aos produtores, foi convidado para comemorar o aniversário de um técnico da equipe. Chegando lá, foi surpreendido por uma festa em homenagem à “obra-prima” que estava criando. Diante do ocorrido, decidiu filmar sua própria angústia. As cenas sufocantes se repetem ao longo de todo o filme. Guido, sem respostas e acuado, é pressionado pelos atores, produtores. Como se não bastasse, ainda tem que administrar a amante e o casamento em crise. Memórias de infância também o atormentam. Tudo se passa numa estância hidromineral. Angústia pouca é bobagem.
Por: Adriana Barsotti
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